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Capítulo 1

EU SOU O AMOR

              — Ei, filho, acorde!

       Ele se assustou quando viu emergir, da mais absoluta escuridão, o homem que lhe sussurrou tais palavras. Face a face, um terno mas invasivo olhar. Em seguida, leu o movimento dos lábios e, de forma desconexa, ouviu a melódica voz mais uma vez:

            — Ei, acorde!

         Estufou o peito e abriu os olhos, sobressaltado. Suas mãos afundaram na superfície arenosa quando ele reuniu forças para se sentar. A noite escura e uma densa névoa o emparedavam. Procurou equilíbrio ao se levantar.

          — Como eu vim parar neste... — Uma descarga de sangue frio correu da nuca em direção às extremidades do seu corpo, seguida por uma sensação de queda brusca, como se o chão tivesse sido arrancado. — Eu não sei quem eu sou — pronunciou com a voz engasgada, enquanto cobria o rosto com as mãos, num impulso mecânico. Tateou a face com as pontas dos dedos, apalpou os fios longos da barba rala, olhou para suas roupas, mãos e braços alongados. — Eu não sei onde estou — disse, como que buscando familiaridade na própria voz.

       Semicerrou os olhos. Não via nada. Apenas o nevoeiro que era agitado pelo vento e tragado para dentro do breu a poucos metros de distância. Deu alguns passos. Andou em círculos.

    Oscilando entre a respiração ofegante e o sufocamento, ele vagava vacilante apalpando a escuridão quando as nuvens começaram a se dissipar, e a luz entrecortada da lua incidiu sobre a área sem vegetação à sua frente. Somente a silhueta desfocada de algumas colinas desenhava o ponto mais distante que se podia avistar. Ele se virou olhando outra vez ao redor e então pôde ver, não muito longe, um vulto que parecia ser um corpo. Bateu as mãos na roupa e esfregou os olhos. Seguiu naquela direção, caminhando como se a gravidade o esmagasse contra o chão. Aproximou-se devagar, cauteloso. Dois homens jaziam recostados em lados opostos de uma formação rochosa que fazia lembrar um urso adormecido. Observou mais uma vez as próprias vestes, eram idênticas às daqueles dois sujeitos: túnicas curtas, calças em tecido sem tingimento e sandálias feitas de fibra natural trançada. Ajoelhou-se ao lado de um deles, hesitou. Viu o tórax se expandir, contrair-se.

        — Ei, acorde! — disse e aguardou. — Rapaz, acorde! — Estendeu a mão e o tocou no ombro.

       O jovem alto e magro abriu os olhos. Em um abrupto reflexo, esquivou-se girando sobre o próprio corpo e parou sentado a poucos metros. Encarou o homem à sua frente com a fixação de quem aguarda um ataque iminente. A movimentação despertou o outro, mais baixo, de compleição forte e ombros largos, que rolou por instinto para o lado oposto e parou ajoelhado com as mãos levantadas e dedos rijos, mirando suas supostas garras em alternância contra os dois sujeitos diante dele. Os três se encararam por cima daquela rocha, imóveis e calados, avaliando um no outro algo que lhes indicasse a necessidade de uma reação de defesa.

       — Quem são vocês? — perguntou o primeiro homem a acordar. Nenhuma resposta. Ele moveu os olhos entre um e outro. Insistiu com mais energia. — Qual o nome de vocês?

           O jovem alto e magro se manifestou:

          — Eu... — titubeou. — Por que não diz quem você é? — retrucou, encarando seu inquiridor.

            Silêncio. Apenas as rajadas de vento frio zuniam rente aos ouvidos enquanto deslocavam finas camadas de areia sobre o solo ao redor deles.

            — Vejo que estão confusos. Eu também acabei de acordar e, por mais estranho que possa parecer, não me lembro de nada, nem mesmo do meu próprio nome. Então eu encontrei vocês.

          — Que lugar é este? — perguntou o jovem es-guio, esfregando o rosto e se dando conta de que suas mãos estavam cobertas de areia.

           O terceiro rapaz murmurou algo incompreensível. Depois falou com maior clareza:

            — Como eu cheguei até aqui?

      Eles ouviram um uivo solitário à distância. Os pescoços giraram com movimentos rápidos. A escuridão prevalecia ao redor, com poucos fachos de claridade aqui e ali. Ficaram congelados. Diante dos seus olhos, então, a névoa e as nuvens voltaram a se dissipar e, tendo sido varridas por completo pelo vento após poucos segundos, descortinaram estrelas e conglomerados de astros pulverizados na vastidão do firmamento, e a lua, tamanho era seu poder e brilho, iluminava a vasta planície desértica que se estendia por todos os lados. Céus e terra se uniam em uma imensidão. Eles se levantaram, estonteados.

            — Vejam, atrás de vocês — o primeiro homem disse, apontando —, parece ser o contorno de algumas árvores. Está distante, mas, se me permitem sugerir, podemos ir até lá.

         Os outros dois olharam na direção apontada. Voltaram a encarar o homem que falava com eles. O rapaz alto se afastou um pouco, sem dar as costas.

            — Escutem — insistiu o primeiro homem —, eu não vou fazer mal a vocês. E acredito que vocês também não têm essa intenção contra mim.

            Outro uivo. Mais reações de espanto. O primeiro homem apontou com veemência para a única coisa existente capaz de justificar uma caminhada em qualquer direção. Quando começavam a andar, o jovem esguio disse, quase que apenas para si mesmo:

            — Mas e se não tiver nada lá? E como saber se vocês dois não têm nada a ver com tudo isso?

            — Eu não vou a lugar algum com vocês! — falou o rapaz robusto, dando dois passos rápidos na direção contrária. — Estamos isolados aqui por alguma razão, e um de vocês é o culpado.

       — Quando eu encontrei vocês — explicou o primeiro homem, com voz tranquilizadora —, eu me antecipei e contei que não me recordava de nada além de ter acordado neste lugar. E esta é a mesma situação de vocês: ambos não sabem como vieram parar aqui. Estou certo? Mesmo se algum de nós for o responsável, talvez isso não tenha tanta importância agora. Estamos isolados no meio do nada e não nos lembramos de nada. O melhor que podemos fazer é direcionar nossos esforços pra saímos juntos daqui. — Ele deu alguns passos na direção da silhueta em forma de árvores, virou-se e fez um gesto para que o seguissem. — Andem! Não adianta ficarmos aqui procurando um culpado se não temos a menor ideia do que está acontecendo. Aquele lugar parece ser o mais provável para encontrarmos outras pessoas.

            Sob uma abóbada celeste cintilando incontáveis e minúsculos luzeiros, eles caminharam descompassados e em completo silêncio. Repetidas vezes olharam para trás, para o ponto aleatório no meio do nada onde, sem qualquer explicação, suas vidas haviam começado. Toda a história que possuíam se resumia a um curto rastro de pegadas deixadas na areia.

            — Será que encontraremos água? — perguntou o jovem alto para si mesmo quando eles se aproximavam do que já podia ser mais bem distinguido como uma tímida área de vegetação.

            Mais alguns passos e chegaram. Foi necessário algum tempo até que seus olhos assimilassem tudo. Descobriram que a pequena formação avistada de longe tratava-se apenas do topo de algumas árvores e palmeiras que se projetavam de dentro de um extenso vale. Parados à beira do que se revelou ser a crista de uma duna com altura suficiente para provocar vertigens, tinham diante deles a lua esférica refletindo seu intenso brilho prateado sobre a superfície serena de um lago de grandes proporções. As margens eram abraçadas por vegetação abundante. Nenhum sinal, porém, de que poderia haver outras pessoas por ali.

         De repente e ao mesmo tempo, os três começa-ram a descer em disparada, afundando os pés e fazendo deslizar com eles uma grossa camada de areia. Atravessaram rasgando por entre arbustos e folhagens. Quando chegaram à faixa de areia que circundava o lago, o primeiro homem se adiantou, lançou-se de joelhos, apoiou as mãos no chão e projetou o corpo para frente, procurando pelo seu reflexo na água. Viu um jovem de cabelos castanhos claros e despontados e uma barba arruivada e desalinhada, que lhe conferiam um ar descuidado. O olhar denunciava um coração desabitado. Ele apanhou um pouco d’água com as mãos e lançou sobre o rosto. Girou a cabeça para trás procurando pelos dois outros homens e os viu, imóveis e atônitos, olhando na direção do lago. Antes que pudesse se virar para ver o que lhes prendia a atenção com tamanho espanto, uma voz rompeu o silêncio.

                  — Sejam bem-vindos, filhos!

          Em pé sobre a água, à pouca distância, um homem os olhava com interesse. Ele usava uma veste talar de um branco que se equiparava à resplandecência da lua, e, embora não fosse velho, sua barba e cabelos longos eram brancos como a neve. Tinha as palmas das mãos voltadas para cima. Com passos firmes, caminhou na direção dos três rapazes. O jovem ajoelhado à beira do lago saltou para trás e se colocou em pé ao lado dos outros. Passou a mão pela face, enxugando o excesso de água.

            — É o homem que vi… — ele ia dizendo, mas foi interrompido pelo rapaz robusto.

            — Você nos conhece?

         — Sim, eu os conheço — respondeu, sorrindo e avançando mais alguns passos. — E esperava por vocês.

            Os três responderam a aproximação do misterioso homem com passos tímidos para trás. Entreolharam-se, e o jovem alto e magro disse, de um jeito brincalhão e um tanto desconcertado:

           — Isso é uma boa notícia, porque nenhum de nós sabe sequer o próprio nome.

        — Vocês estão seguros. Não se preocupem — o homem disse, e dirigiu-se para o primeiro jovem a acordar. — Seu nome é Ethan, que significa mensageiro destemido. — Ele então caminhou ao longo da margem, ainda sobre a água. Parou diante do jovem alto. — Você é Kaleu, que quer dizer voz do coração. — Virou-se para o rapaz robusto. — Seu nome é Aaron, que quer dizer fortaleza indômita.

           Ethan mantinha as sobrancelhas arqueadas. Kaleu tinha um sorriso satisfeito estampando o rosto e empurrou o queixo de Aaron para que ele fechasse a boca. O homem de barba e cabelos brancos começou a caminhar de costas na direção do centro do lago. Disse:

            — Suas virtudes são seus bens mais preciosos e elas os seguiram até aqui. Vocês foram designados para uma importante missão. Durmam neste local esta noite. Amanhã eu voltarei.

         Os rapazes se encararam mais uma vez, intrigados. Aaron perguntou:

             — Qual seu nome?

            O homem já havia desaparecido.

         Então, no silêncio absoluto, enquanto eles olhavam estáticos para a água intocada que refletia como mercúrio líquido à luz do luar, uma voz estrondosa, semelhante a um trovão, rasgou o céu provinda de todas as direções e tomou conta do vale:

            — Eu sou o Amor.

 

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